:: DANÇA NA UNIVERSIDADE










Quando uma criança começa a dançar, geralmente inicia sua carreira no ballet clássico. Vai para uma academia e começa a aprender essa técnica quadrada e tão complexa, onde poucos são os casos em que escolhe de verdade por isso. É colocado ali pelos pais que desejam ver suas crianças no palco.

O ballet talvez seja a forma de dança mais popular, conhecida e admirada hoje em dia. Por mais que existam outros estilos, como a Dança contemporânea e as danças populares tradicionais, essa é a que tem maior numero de fãs.

Depois de anos e anos de ensaios, aulas e espetáculos, os caminhos se bifurcam: aquelas que definitivamente estavam ali pela vontade maternal deixam o mundo “rosa cetim” do ballet. Aquelas que aderiram a vontade dos pais e se apaixonam por aquilo que fazem, continuam. Quando crescem mais, os caminhos se separam novamente: algumas são pupilas desse mundo, com um talento muito grande e/ou um trabalho de muitos anos para dançarem divinamente e começam a sua carreira profissional por ali mesmo; dançando em festivais e indo para escolas famosas de dança pelo mundo mesmo que estas ultimas não sejam de ballet clássico.

Algumas escolhem um mundo totalmente à parte, a graduação, o nível superior nessa área e descobrem um mundo totalmente diferente. No Brasil, a graduação em dança existe em algumas universidades, mas o curso não é muito conhecido, apesar de aos poucos estar se revelando.

Especificando a cidade de Campinas, algumas escolhem e entram no mundo UNICAMP, Instituto de Artes, ao ser um mundo totalmente a parte do que se vê fora da cidade universitária.

No inicio, se descobre muito sobre quem o indivíduo é, quem a sua família foi, é e de onde veio. Aprende a ter consciência do seu próprio corpo e reconhece que muito daquilo que já aprendeu pode ser utilizado de inúmeras formas e em inúmeros casos e ao mesmo tempo milhões de conceitos que estavam errados ou distorcidos.

Chega um momento que tudo começa a fazer sentido. As disciplinas se relacionam numa forma intensa. A questão é: o quanto esse mundo universidade pode ser levado para a vida pessoal do graduando?

Na dança, o instrumento de estudo é sempre o corpo, um bem que está sempre com o aluno independente de sua vontade. Tudo o que se passa ao redor pode ser analisado, sendo este dança, musica, corpo, comemoração, trabalho ou futilidade qualquer da vida. O mundo começa a ser questionado de uma forma mais consciente e mesmo assim mais imaginativa e solta de padrões. Os preconceitos começam a ser revistos e os medos a serem enfrentados. O cientifico se torna mais constante e começa-se a acreditar somente naquilo que é visto, com uma pequena dose de imaginação no meio.

“Pessoalmente é uma palavra que não existe mais depois da faculdade”.

Cássia Navas disse isso em uma de suas aulas, e essa frase explica bem o parágrafo anterior.

Parece paradoxal ou contraditório, mas não é. Existe um trabalho de pesquisa sobre o próprio corpo enquanto a técnica corporal também é trabalhada.

Quanto a essa pesquisa corporal, Graziela Rodrigues, criadora do método utilizado no curso explica:

“(...) O percurso interior (imagens e registros emocionais) é desenvolvido em interação com o movimento exterior, buscando-se sempre uma qualidade que seja resultante da realidade do sujeito bailarino”. (Rodrigues, G; 1997).”

Esse método é o que parece fazer com que a parte sensorial e imaginativa do trabalho em dança traga um sentido mais científico aquilo que pode ser considerado contraditório.

Como exemplo pode-se trabalhar a imagem de um rio o qual faz parte da história do bailarino, criando a sensação de estar de verdade em um rio, trabalhando as sensações que ele traz, como ser frio, falta de gravidade, dificuldade em se mover, etc.

A partir dessas sensações em relação com o que foi aprendido em outras disciplinas, o movimento fica mais consciente, pois a dinâmica do movimento e seu caminho são identificados mais facilmente o que faz com que a parte sensorial também possa ser mais bem explorada com maior segurança, e mesmo assim a técnica aparece, tornando o movimento mais claro.

Levado em conta tudo isso, a analise passa a acontecer em tudo, no caminhar de qualquer pessoa, os cheiros que sentimos, o gosto daquilo que comemos e isso, aliado ao aprendizado traz a noção de desprendimento de rótulos e uma seleção maior daquilo que se apreende, pois nem tudo serve, por mais que pareça bonito ou que pareça orgânico ao corpo.

A Universidade traz uma reorganização do individual, quando faz com que nós mesmos nos tornemos mais conscientes daquilo que somos, num outro momento traz a noção do outro, e de como essas duas noções podem se relacionar, assim como discute também fatores importantes para o crescimento do aluno como a universidade em geral e o mercado de trabalho que irão enfrentar depois da faculdade, mas na maioria dos casos durante o próprio percurso na universidade.

Isso nos leva a pensar em como a dança é levada em conta por outras áreas na universidade.

Considerando algumas discussões informais com alunos de outras áreas da UNICAMP (principalmente exatas), e institutos que são construídos (ou não) pelo campus, surgiu uma questão interessante: Qual o tipo de conhecimento que a dança produz? Porque um curso de graduação em Dança? Porque a verba é tão pequena e mesmo assim o curso é tão bem conceituado em guias de universidades?

Seria a dança vista pela população brasileira como apenas mais uma diversão, que se encaixa no antigo conceito de “pão e circo” romano?

A arte parece não ter reconhecimento, pois não traz nada de físico, concreto ao mundo. Tudo aquilo que se é criado não pode ser repetido na mesma forma, colocado em uma caixinha azul e distribuído para qualquer pessoa. Depende um pouco talvez da imaginação de quem assiste. Não deixa de tornar-se caro e não passível de ser chamado de produto.

Convém pensarmos que a dança na universidade não deveria criar produtos e sim pesquisas e essas pesquisas, quando focam no próprio instituto, acabam por ser mais subjetivas do que objetivas ou mais abstratas que concretas, trazendo mudanças no próprio corpo que não são necessariamente visíveis por outros. Isso faz com que quem está de fora acredite que a pesquisa não traz nada de adicional em questão cientifica e de conhecimento para a população em geral como em outras áreas.

O instrumento do bailarino é o próprio corpo, assim como o instrumento de um engenheiro da computação é seu computador. A dificuldade maior está em entender que o corpo se transforma sempre, pois tem influências não só vindas do ambiente externo, como tem influências internas também, como as orgânicas.

O ser humano é o único animal passível de raciocínio e essa também é uma influência importante no corpo de uma pessoa. É esse instrumento que o estudante de dança tem que agregar a sua pesquisa, mesmo sendo o corpo humano uma máquina tão fabulosa e ainda assim não descoberta integralmente.

Sendo assim não é necessário que haja tanta verba para a “diversão da população”.

Refletir sobre o tipo de conhecimento que a dança produz, a partir de todo um estudo da arte e da dança na universidade, chega-se a conclusão de que há uma pesquisa subjetivamente palpável, e que esta faz uma ponte entre o cientifico, o sensitivo e o biológico.

Acredita-se que a Graduação em nível superior em dança propicia uma relação de pesquisa em si mesmo e no outro. Essa pesquisa tem uma consciência corporal mais apurada, podendo propiciar tanto ao aluno como na população em geral um conhecimento que relacione o que o profissional de educação física, o de biologia (anatomia, fisiologia) e o da área de saúde publica fazem, relacionando-se entre si e com a parte criativa humana; esta que se perde cada dia mais dado a otimização da mão de obra trabalhadora desde a era da revolução industrial, na qual as múltiplas atividades do campo passam às industrias de um modo que o homem pratica uma única atividade durante um longo período de tempo e diminui sua capacidade criativa. (readaptado de Read, Herbert – 1983).

Num nível científico, o estudo se torna mais crível e fundamentado.

Arrisca-se a dizer que este conhecimento pode fazer com que a população pense. E deixe as futilidades de lado e passe a analisar os fatos que passam pelo mundo a sua volta. No Brasil essa alienação existe muito forte ainda, e com isso o mercado de trabalho mostra uma demanda de oferta muito baixa, já que não há espaço.

Cabe ao estudante dessa área abrir portas. Desde o inicio do curso é dito aos alunos:

“É preciso criar novas profissões na área de dança” (Cássia Navas – durante mais uma de suas aulas).

Isto é uma realidade, acima disso talvez esteja o reinventar essas profissões e mostrar à todos o grande mundo do pensar criando.

Nesse âmbito a dança pode abrir portas para um mercado de trabalho muito mais amplo e prazeroso para quem assiste. Talvez dessa maneira possamos parar de entregar bulas para os espectadores de nossos espetáculos para que estes só assim consigam entender o que queremos dizer, colocar a vida no palco de uma maneira mais acessível mesmo assim saindo do convencional.

Autora: Patrícia Rosin Lacintra Vechia